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O que um café pode ensinar sobre revisão

Há alguns meses comecei a preparar café com mais atenção. Tem virado um hobbie. E, por sugestão, resolvi deixar isso acontecer na minha vida.

Passei a anotar moagem, temperatura da água, proporção, tempo de extração. Mudei cliques no moinho. Esperei alguns segundos a mais entre um despejo e outro. Voltei ao caderno para registrar o que havia acontecido. Pode parecer uma frescura para muitos, mas, aos poucos, fui percebendo que o café não melhorava porque eu encontrava uma receita perfeita. Melhorava porque eu aprendia a observar.

Foi aí que pensei sobre a revisão de poemas. Nem de longe, preparar café e escrever são a mesma coisa. Se analisarmos bem, ambos parecem exigir uma disposição semelhante diante do tempo. Há uma espécie de beleza que só aparece quando deixamos de procurar resultados imediatos e começamos a prestar atenção nas pequenas diferenças.

Quando comecei a preparar V60, queria descobrir a receita ideal para cada café. Hoje é curioso perceber que essa pergunta desapareceu. Nenhuma receita funciona exatamente igual. O clima muda. A água muda. O grão envelhece alguns dias. A moagem nunca é absolutamente idêntica. O café nos obriga a abandonar a fantasia do controle e a desenvolver outra habilidade: perceber.

E foi aí que eu pensei que a revisão pode ser menos uma técnica e mais um exercício de percepção. São métodos e médotos. Há quem revise um poema como quem tenta corrigir um erro. Eu tenho pensado cada vez mais diferente. Revisar, para mim, é descobrir o que o texto já estava tentando dizer antes que eu o interrompesse com excesso de vontade.

No café, aprendi outra coisa. Quando uma extração não fica boa, a tentação é mudar tudo na tentativa seguinte: outra moagem, outra temperatura, outro tempo, outra proporção. Mas isso quase nunca ensina alguma coisa. Se todas as variáveis mudam ao mesmo tempo, não sabemos qual delas produziu a diferença.

Com um poema acontece o mesmo. Se a gente troca vinte palavras de uma vez, inverte parágrafos, corta imagens, alterar o ritmo inteiro, não vai dar para saber exatamente o que foi que deu a diferença. Às vezes a revisão vira uma espécie de ansiedade disfarçada de trabalho. Em vez de escutar o texto, começamos a falar mais alto do que ele.

Há ainda uma terceira aproximação, talvez a que mais me interessa. Um café recém-torrado costuma precisar de alguns dias para revelar melhor seus aromas. Existe um tempo de descanso que não pode ser acelerado.

Os poemas também precisam respirar.

Há textos que escrevemos muito perto de nós mesmos. Ainda carregam o calor da experiência, a velocidade da emoção, a necessidade de dizer. Voltar imediatamente para revisá-los pode significar apenas continuar preso à mesma respiração. Fechar o arquivo, esperar alguns dias e retornar não é abandonar o poema. É permitir que ele se torne um pouco menos nosso e um pouco mais linguagem.

Tenho pensado que o café nunca me ensinou a escrever. Mas pode ser que ele tenha me ensinado algo bem importante: a permanecer diante de uma coisa o tempo suficiente para que ela revele aquilo que, no primeiro olhar, ainda não estava visível.

Desde então, preparo café e reviso poemas quase do mesmo modo. Sabendo que ele (o café ou o texto. Ou os dois juntos também, vale a pena) está ali, mas não necessariamente tem uma única receita perfeita.

E eu sigo tentando prestar mais atenção.


 
 
 

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