Aquele menino
- Marília Carreiro
- 3 de jul.
- 2 min de leitura
Ele nasce de mim, para mim, comigo. E para ele eu nasço quando abro os olhos, ao
longe, bem perto. De alguma forma, aquele menino sou eu. E, sobre antes dele, não sei de nada. Em algum momento a gente se viu no espaço-tempo de uma dimensão onde as horas não existem. A história do mundo que ele me contou não foi nova o suficiente.
Abriu pontos na minha cabeça, com certeza abriu. Cavoucou coisas dentro de mim que eu sabia que existiam adormecidas. É como se algumas das suas lembranças já
estivessem sido passadas para o meu cérebro sem eu poder dizer Não quero.
A falha, uma fratura. A fenda que se abre com o tempo, jogando o menino lá no fundo
tão fundo que ele não conseguirá, nem com muita ajuda, voltar à superfície. E ele não
pede ajuda, prefere criar e se confortar com superfícies no fundo para que consiga sair desse tanto de pensar que é a vida. É o silêncio, o cálculo, a solidão no meio das
pessoas. Amenidades, a certeza de viver dias plenos, contentar-se com o que está mais próximo, nunca demonstrar o que vem profundo.
Nós nos entendemos muito bem. Com respeito ao limite. Eu não preciso dizer todas as
coisas que me acontecem e ele se importa menos ainda com isso. O formidável é que eu esteja bem. Para mim, isso é gigante e complexo; para ele, entender o conceito de estar bem é banal. É lógico que se está bem. Mal só está quando a doença é física. O que se viu e ouviu, a cabeça, isso não conta. Não há tempo para chorar. Temos mais o que fazer. Estar contente com a vida que se tem é o melhor para não sofrer. As coisas ruins passam.
Não passam, menino.
Mas em algum momento do fim da tarde, com o vento prenunciando a noite fria, os
pensamentos dele fazem sentido. Mas o sentido não dura. E eu entro nesse espiral de
pensar no menino que eu fui há um instante, a menina que também está aqui, o menino que eu não conheci, mas que faz parte de mim com suas histórias, sua rotina simples, seu respirar. Esse menino que, de alguma forma, sou eu.
Por mais que sejamos parecidos, nunca saberemos um do outro.
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Conto publicado na coletânea OffFlip, em 2023.
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