Fofoca
- Marília Carreiro
- 3 de jul.
- 2 min de leitura
Este lugar aqui já serviu de desova. É interessante pensar nisso porque é um parque dentro da cidade. Descobriram os corpos de uma forma muito simples. Um cachorro de rua entrou aqui e ganhou comida de uma pessoa que estava andando por aí. O cachorro comeu um pouco e foi enterrar o resto da comida. Fez um buraco na terra. Se empolgou. A pessoa que deu a comida não entendeu o cachorro cavoucando a terra enlouquecidamente e chegou perto pra ver. Era a ponta de um osso que já estava pro lado de fora. Raso, coisa de um palmo de terra. O cara achou engraçado. Do osso veio outro osso. E outro. E aí foi ficando estranho. O cara falou com o guardinha. O guardinha me interfonou. Fui lá, constatei o ocorrido, chamei a polícia. A polícia chegou, olhou e mandou fechar temporariamente o parque para investigações.
Acharam mais osso e osso e o corpo todo e duas cabeças. Corpo humano geralmente não tem duas cabeças, né. Era sinal de que tinha mais osso. Eu tive que ficar trabalhando, mesmo com o parque fechado. A polícia precisa de testemunhas. E eu, de dinheiro.
Meu trabalho é diurno. Eu só falo sobre o que acontece das oito às dezoito. É muito fácil entrar no parque. Ele é enorme. Mas isso eu não disse. Disse que pela manhã vem muitas crianças. É normal adolescentes que deveriam estar em aula gazeteando no parque à tarde. A internet é livre em todo o lugar e as pessoas não olham muito além dos centímetros que tem a distância dos seus olhos pras telas dos seus telefones. No máximo tiram uma foto da natureza ou uma selfie na natureza. E publicam. Jogo da velha, joinha e tal e se esquecem de observar o que há em volta.
As câmeras de segurança não asseguram nada. Nenhuma funciona. A patrulha só patrulha em horários marcados, talvez agora resolvam esticar esses horários, mas duvido muito. Eu sei que não funciona porque sou a responsável pelo monitoramento. Já até mandei protocolar lá na prefeitura um pedido de revisão dessa tralha. Mas ninguém nunca vem. Eu sei porque sou eu quem assino a papelada. Quem fez isso conhece a área e sabe muito bem da logística.
Gosto muito daqui. É lindo. Dá uma paz danada pro espírito. Existe uma área do lado direito do parque que é bem reservada. Minha torre de comando fica nela. Dela, consigo ver o outro lado do parque, pouco movimentado também. Tem uma pedra engraçada. Dizem que tem formato de pera, só que com o lado mais fino pra baixo. Parece que vai rolar de lá a qualquer momento. O parque bomba mesmo é no meio, onde tem parquinho, lojinha e área de meditação. Dia de domingo isso aqui vira um inferno.
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Conto publicado no livro Lama, 2019, Editora Pedregulho.
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