top of page

Estar no “entre”

Será que a nossa geração tenha sido a última a aprender o mundo devagar?


 

Pancas, interior do Espírito Santo, 1996.


Seis e quarenta da manhã. Café adoçado, pão com manteiga e a televisão recém-ligada, canal ajustado no receptor para parabólica da Tecsat anunciando o início da programação infantil. A casa ainda despertando devagar. O barulho dos talheres. As crianças passando na rua a caminho da escola. O mundo começando numa velocidade compreensível para o corpo.


Havia tempo entre as coisas. Entre acordar e sair. Entre desejar e receber. Entre uma voz e outra.


Naquela época, desaparecer por algumas horas não produzia angústia em ninguém.

As pessoas simplesmente desapareciam. Iam ao mercado. Dormiam à tarde. Esqueciam o telefone fora do gancho. Atravessavam a cidade sem serem localizadas. Havia uma espécie de acordo silencioso segundo o qual toda presença continha também a possibilidade natural da ausência.


Hoje, poucos minutos sem resposta são suficientes para produzir ansiedade (será que transformamos a presença em prova de afeto?).


Não digo isso com nostalgia moralista. Não tenho vontade de voltar ao modem barulhento, às fotografias tremidas ou à impossibilidade de encontrar alguém depois que ela saía de casa. Existe uma tendência irritante de transformar qualquer reflexão sobre tecnologia num desejo conservador de retorno, como se pensar criticamente o presente significasse obrigatoriamente rejeitá-lo.


Penso mais na estranheza do fato de que uma geração inteira precisou reaprender a existir em menos de trinta anos.


Às vezes, me parece que atravessamos, além de uma transformação tecnológica, uma transformação perceptiva. Mudou a velocidade das coisas, a experiência do tempo, o modo como o silêncio ocupa o corpo.


Quando eu era criança, havia tardes inteiras em que nada acontecia. E o curioso é que esse nada não parecia vazio. O tédio tinha densidade. Existia uma lentidão natural nas horas. Uma possibilidade concreta de olhar pela janela, ouvir o ventilador girando ou acompanhar distraidamente a luz mudando de lugar na parede.


Hoje, qualquer intervalo é imediatamente preenchido. A mão procura o celular antes mesmo que o pensamento termine de existir.


Existe algo melancólico nisso. Como se tivéssemos desaprendido pequenas formas de permanência. Esperar numa fila sem anestesia. Caminhar sem distração. Almoçar sem alternar entre mastigar e deslizar o dedo pela tela. Até a tristeza parece ter perdido duração. Sofremos interrompidos.


Vídeos curtos. Manchetes. Notificações. Fragmentos de linguagem deslizando infinitamente diante dos nossos olhos. E a sensação de que nos tornamos incapazes de suportar a própria pausa.


Talvez o silêncio contemporâneo não seja ausência de som e, sim, ausência de estímulo. E por isso tenha se tornado tão raro.


Cresci numa geração velha o suficiente para lembrar da ficha telefônica, jovem o suficiente para viver a internet doméstica e ainda suficientemente nova quando tudo acelerou de uma vez.


Lembro do barulho da conexão discada ocupando a casa inteira, permitida das nove da noite até seis da manhã e, aos finais de semana, após 14h do sábado. Da internet como um lugar específico, quase um território temporário. Entrávamos nela por algumas horas e depois voltávamos ao mundo.


Hoje já não voltamos completamente. A internet é atmosfera. E o resultado disso é a sensação permanente de inadequação temporal. Como se pertencêssemos simultaneamente a dois ritmos incompatíveis.


Nem analógicos o suficiente para o silêncio. Nem digitais o suficiente para a velocidade.


Como é cansativo viver assim. Não apenas trabalhar demais, mas adaptar-se demais. Aprender continuamente novas formas de presença. Novas plataformas. Novas linguagens. Novas maneiras de responder rápido o bastante para não desaparecer socialmente.


Durante muito tempo imaginei que a ansiedade contemporânea estivesse ligada apenas ao excesso de trabalho. Hoje suspeito de outra coisa: estamos cansados também pela impossibilidade de terminar uma experiência antes que outra comece.


Tudo chega rápido demais, exige atenção simultânea e parece acontecer sem duração. E a atenção se tornado um dos principais territórios de disputa do nosso tempo. Empresas inteiras competem diariamente por segundos da nossa percepção.


E, aos poucos, começamos a perder a capacidade de permanecer longamente dentro de uma única coisa, seja ela um livro, uma conversa, uma paisagem, um pensamento.

Crescemos ouvindo expressões como carpe diem justamente no momento histórico em que começamos a perder as condições materiais de contemplar o instante devagar.


Aproveite o momento. Registre o momento.Publique o momento. Patrocine o momento.

Viver lentamente se torna administrar a própria presença. E a parte mais melancólica disso tudo seja perceber que desejávamos exatamente esse futuro. Queríamos velocidade, conexão, acesso irrestrito ao mundo.


Conseguimos. Mas o corpo continua antigo. O coração ainda pulsa numa frequência que não acompanha notificações.


Estamos cansados sem conseguir explicar exatamente de quê. Sofremos da dificuldade de permanecer. E pode haver, também, certa tristeza em pertencer a uma geração que assistiu ao desaparecimento gradual do intervalo. Porque o intervalo não era apenas vazio. Era também o lugar onde a vida conseguia respirar.

 

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Biotipo

Augusta escolheu seu nome por causa da rua, famosa por seus bares e sua vida noturna e o que as duas tinham mais em comum: a extravagância. Conseguiu se fixar em um bairro da Zona Oeste da capital. In

 
 
 
Fofoca

Este lugar aqui já serviu de desova. É interessante pensar nisso porque é um parque dentro da cidade. Descobriram os corpos de uma forma muito simples. Um cachorro de rua entrou aqui e ganhou comida d

 
 
 
Aquele menino

Ele nasce de mim, para mim, comigo. E para ele eu nasço quando abro os olhos, ao longe, bem perto. De alguma forma, aquele menino sou eu. E, sobre antes dele, não sei de nada. Em algum momento a gente

 
 
 

Comentários


bottom of page